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“Nós
nos recusamos a ser o que você queria
que nós fôssemos. Somos o que
somos, é assim que vai ser. Você
não pode me educar”.
Bob Marley
*
Por Marcos Vinícius
REI
MARLEY, SEMPRE MAJESTADE.
27 anos depois da morte, o predestinado, o
rei do reggae Bob Marley, continua vivo na
memória da massa regueira de São
Luis!
O
mais difícil é imaginar a Jamaica
em 1945. O mundo caminhava para o final de
sua segunda grande guerra. Uma nova composição
política e econômica iria realinhar
o globo, na pequena ilha caribenha, a Grã-bretanha
era soberana.
Na diminuta colônia da América
Central, a armada inglesa mantinha alguns
súditos de sua majestade, a rainha.
Militares e brancos e parte destes solitários
oficiais passavam o tempo deleitando os prazeres
da carne oferecidos pelas nativas –
descendentes dos índios Arawak –
e pelas filhas dos escravos africanos que
foram remetidos para a ilha da Xamayca desde
1509.
Mesmo que os eventuais encontros deste tipo
fossem rotinas entre as tropas, o destino
sabiamente reservou instantes de magia ao
menos uma vez. Foi quando Cedella Malcom cedeu
aos encantos do tenente Norval Sinclair Marley.
Ele, branco, britânico. Ela, obviamente
negra e nativa. Na Costa do Ouro, na África,
onde foram encontrados os cromanties, ancestrais
do pai de Cedella, originaram-se o braço
materno na dinastia que culminou na existência
do rei Bob. De um lado a nobreza africana,
de outro o poder imperialista de Reino Unido.
No centro o messias, o profeta, o eleito.
O rei mundial do reggae, ou melhor, o predestinado.
Enfim, o legado de Marley torna-se tão
complexo que é difícil definir
todos os seus feitos, para a importância
da música e a cultura do terceiro mundo.
O pai de Cedella, Omeriah Malcom, trouxe no
sangue uma herança muito especial.
Feiticeiro, curandeiro, Myalman – uma
espécie de bruxo com o poder de afastar
o mal emanado pelas almas penadas (duppy,
no vocabulário do iniciados). Omeriah
conhecia a verdadeira vocação
do neto: sua ascendência deveria desembocar
num predestinado.
“O
meu pai era um homem branco, a minha mãe
era uma mulher negra, e eu apareci no meio.
Assim que já sabe, eu não sou
nada. Tudo o que sou é de Deus”.
Bob Marley - 1977
NASCIMENTO
DE UM REI – No município de St.
Ann, norte da então chamada “Jamaica”,
após ser alterado o antigo nome da
pequena ilha caribenha (Xamayca), por volta
de 1945, no vilarejo de Nine Milles, havia
uma negra robusta, forte, amparada por um
senhor mais velho, seu pai. Cedella e Omeriah.
Norval Sinclair Marley estava longe, haveria
zarpado um dia após seu casamento com
Cedella. Ela não parecia sozinha: espírito
forte estava ao seu lado, seu pai os chamavam
enquanto afastavam o mal.
Em 6 de fevereiro de 1945, vem ao mundo Robert
Nesta Marley. Sob o signo de aquário
nascia um bebê miúdo, magro,
daqueles desnutrido como muitos nascem aqui
no Brasil, vítimas da estrutura social
em que vivemos. Um jamaicano pobre e aparentemente
sem muito futuro, como tantas outras crianças
que nasciam na ilha. Ainda jovem, porém,
tímido e introspectivo, começava
a deixar evidências que não era
“apenas” mais um. Ainda muito
pequeno e sem qualquer alfabetização,
Bob impressionava os mais velhos com sua perspicácia
e desenvoltura com as palavras.
“Deus
criou as pessoas em tecnicolor. Deus nunca
fez diferenças entre negros, brancos,
azuis, verdes ou cor de rosa. As pessoas são
pessoas, sabe? Esta é a mensagem que
tentamos divulgar”.
Bob Marley – 1976.
A
MUDANÇA (Malas e Bagagens...) –
Talvez prevendo o brilhantismo e o destino
reservado para o pequeno Marley, Cedella decidiu
mudar do vilarejo para a capital “Kingston”,
lugar que escolheu para viver ao lado do seu
novo companheiro, Toddy Livingstone, após
sua separação com o pai de Bob,
O capitão inglês Norval Marley,
que fazia parte do regimento britânico
das ilhas ocidentais, que apesar da pressão
de sua família na Inglaterra, não
deixou de ajudar financeiramente o filho que
pouco teve contato.
Bob
não se importou nem um pouco com as
mudanças, tanto que Toddy era o pai
de seu melhor amigo, Bunny, e até porque,
Nine Milles ficaria pequena para ele, mais
cedo ou mais tarde. Em 1953, a família
Livingstone aportou de malas e bagagens na
maior e mais miseráveis das favelas
dos subúrbios de Kingston “Trench
town” (ou Cidade do Esgoto), assim era
chamada por ter sido construída sobre
as valas que drenavam os dejetos da parte
antiga de Kingston. Neste lugar, a família
Marley desembarcou nos anos 50.
DESCOBERTA DO REI (As minas de Marley) –
Os primeiros passos foram relativamente estreitos,
inibidos. Secretamente procurou um produtor
de discos, Clement Dodd, também conhecido
como Sir Coxsone (que faleceu no mês
passado, vítima de enfarto, aos 58
anos). Dodd era líder de uma das equipes
de som mais populares de Kingston, equipes
que promoviam Jumo ups, bailes regados a novíssimos
sons americanos. Em sua primeira visita a
Dodd, Bob deu azar. Mas não desanimou.
Foi atrás de um sujeito estranho, de
nome Leslie Kong – também produtor,
e já gozava de algum prestígio
em função de sua grande descoberta,
Jimmy Cliff. Foi o próprio Dodd quem
primeiro pegou no ar, num golpe de sorte,
o potencial de Bob Marley como cantor, e mandou
bala na melodia de “Judge Not”.
Marley pensava estar sonhando, mas desta vez
a coisa estava mesmo acontecendo. Com os músicos
da casa, Bob gravou seu primeiro compacto.
A escalada estava apenas começando,
ainda assim, algo muito positivo já
havia acontecido. “Judge Not”
estava registrada, era a materialização
de um sonho – um dos sonhos que indicavam
a Bob sua verdadeira vocação.
“Qualquer
que chore pela justiça é um
Wailer”.
Bob Marley - 1974
THE
WAILERS (A Trupe do rei) – Nos anos
60, havia uma “entidade” sonora
muito peculiar. Chamava-se “Soul System”
e era uma espécie de Juke Box destinada
a animar as festas ou simplesmente agitar
as ruas, assim como as radiolas existentes
em São Luís, na Jamaica também
denominadas de “Hi-fi”. O mais
fabuloso dos Sounds System pertencia à
figura de Lee “Scracth” Perry,
o mago dos estúdios e de uma das mais
fantásticas vertentes dos sons produzidos
na ilha caribenha, o “Dub”.
Em suas horas vagas, estudava violão
e canto, sempre incentivado por Joe Higgs,
homem de notoriedade na trenchtown das décadas
de 50 e 60. Em 1961 o professor Joe Higgs,
formou com Neville Livingstone (Bunny Wailer),
Winston Hubert McIntosh (Peter Tosh), Junior
Braithwaite, Beverley Kelso e Cherry Smith,
o grupo “Teenagers”, batizado
depois de “The Wailing Rudeboys”
e mais tarde “Wailing Wailers”.
Os Wailers então conheceu um homem
que revolucionaria o seu trabalho: Lee Perry,
cujo gênio produtivo havia transformado
as técnicas de gravação
em estúdio em arte. A associação
Perry / Wailers resultou em algumas das melhores
gravações da banda. Músicas
como “Soul Rebel”, “Duppy
Conqueror”, “400 Years”
e “Small Axe” se na foram clássicos
definiram a direção futura do
reggae. Em 1970, Aston “Family Man”
Barret seu irmão Carlton (baixo e bateria,
respectivamente) se uniram aos Wailers. Eles
eram o núcleo da banda de estúdio
de Perry e haviam participado de várias
gravações do grupo. Os irmãos
eram conhecidos como a melhor seção
rítmica da Jamaica.
“A
minha música não é contra
os brancos. Eu nunca poderia cantar isso.
A minha música é contra o sistema,
que ensina você a viver e a morrer”.
Bob Marley
SEMANA
DE MARLEY NA JAMAICA – A Jamaica iniciou
no começo de fevereiro de 2004, a semana
de músicas e atividades para comemorar
o aniversário de nascimento do rei
Bob Marley, onde muitos o consideram de oitavo
herói nacional.
Há treze anos, os jamaicanos lembram
a data de seu nascimento, em 6 de fevereiro
de 1945, com a “Semana de Marley”.
Entre os sete Heróis Nacionais da Jamaica
estão Samuel Sharpe, propulsor da rebelião
dos escravos em 1831 e Wiliam Alexander Bustamante,
que em 1953 se transformou no primeiro chefe
de governo da ilha.
Aqueles que querem que Marley seja nomeado
herói, afirmam que entre seus méritos
está o fato de ter feito com que, através
da música, o nome da Jamaica fosse
mencionado no mundo inteiro. No entanto, os
que se opõem a esta distinção
lembram as excentricidades do músico
e sua defesa pública do uso da maconha,
droga cujo consumo e posse é ilegal
(em partes) na Jamaica, mas para os rastafari
é o inverso.
Enquanto continua a polêmica, os amantes
do reggae aproveitaram uma semana da música
que contou com performance dos filhos “Ky
– mani Marley, Ziggy Marley e ainda,
Sizzla, Chuck Fender, Coco Tea, e Culture”.
As comemorações sempre começam
com um serviço religioso da igreja
Ortodoxa Etíope em Kingston e continuam
nos demais dias com shows e uma festa de aniversário
no museu dedicado ao artista, onde também
foi realizado um debate em 2003 denominado
“A Filosofia do Rastafari é boa
para o bom governo na Jamaica?”.
O grande show aconteceu neste mesmo ano, na
praia de James Bond, no nordeste da ilha,
onde encerrou a semana de comemorações.
As músicas de Bob Marley continuam
figurando entre as mais vendidas na Jamaica
e em outros lugares do mundo, como nos Estados
Unidos e na Grã-bretanha, onde foram
realizados atos em memória do artista
– mor jamaicano.
Sem contar que em uma das principais revistas
especializadas da Europa, foi realizada uma
pesquisa em que afirma que a Fotografia Marleiana
é considerada a segunda expressão
de marketing mais fotogênica do mundo,
atrás apenas do revolucionista “Ernesto
Che Guevara”.
27 ANOS DEPOIS O REI CONTINUA VIVO –
Marley morreu no dia 11 de maio de 1981. Suas
últimas palavras, dirigidas para sua
mãe Cedella,
foram: “Não chore, mamãe,
eu estarei bem”. Com muita música
e todas as honrarias de um herói nacional,
Bob foi sepultado. Ao seu lado, a Gibson vermelha
do tipo de um pote de maconha e uma Bíblia,
aberta no salmo 23: “O senhor é
meu pastor: nada me faltará. Em verdes
pastagens me faz repousar, conduz-me até
as fontes tranqüilas e reanima minha
vida...”.
No Maranhão não foi diferente
aconteceram inúmeras homenagens póstumas
para saudar o ídolo maior da musicalidade
negra, Bob Marley. Festas com imagens do rei
do reggae, radiolas nas praças, nos
clubes, enfim todas as honrarias para aquele
predestinado que veio ao mundo, realizou a
sua missão e foi embora.
Um dos principais organizadores das homenagens
da vida e obra de Marley aqui no Maranhão,
é o discotecário e proprietário
da Radiola de reggae (FM NATTY NAYSON), Nayfson
Henrique dos Santos, popularmente conhecido
pelo codinome de “Príncipe do
Reggae”, Natty Nayfson. Ele acredita
na força e na grande expressão
que Marley deixou aqui na terra. “Bob
Marley foi o ídolo do reggae, a pessoa
que conseguiu sair da Jamaica para o mundo,
mostrando a música de protesto, que
tem tudo haver com paz, alegria, harmonia
foi quem revolucionou o reggae, e jamais deixaremos
de esquecer”, diz Natty. O próprio
organizador explica que as saudações
em memória de Marley que realiza todos
os anos, mais precisamente em São Luis,
tem um caráter social. Aliado às
homenagens com festas em clubes, e ruas onde
mora, no bairro da Liberdade (subúrbio
da capital, também chamado de “gueto
do reggae”), Natty Nayfson aproveita
o coincidente mês e dia 11 (domigo)
de Maio da morte do cantor, com o mês
das mães e distribui “Cestas
Básicas” a centenas de carentes
do seu bairro de origem. “É de
fundamental importância, a distribuição
de cestas básicas para as mães
do bairro, em virtude das mesmas estarem em
um momento que pertencem a elas, visto que
todo dia é dia das mães, mas
esse dia é como se fosse uma oferenda
do rei Bob Marley” afirma. A festa em
homenagem aos 27 anos da morte do rei do reggae,
Bob Marley, será realizada neste domingo
dia 11 no CLUBÃO DO LYON (localizada
na avenida Kennedy) e vai contar com as presenças
de D’js como: Júnior Black, Jorge
Black, Luis Mecânico, Marcos Vinícius
e outros , ao som da Radiola FM Natyy Nayfson.,
a partir do meio-dia.
Para o radialista e pesquisador da música
negra, Ademar Danilo, a popularidade de Bob,
tornou o artista muito badalado em nossa cidade.
“Essa influência se deu pela consolidação
da preferência das pessoas pelo reggae
aqui no Maranhão. Na época era
um dos artistas mais populares do mundo e
chegou com muita força. Para alguns
adeptos ao estilo, inicialmente o gosto rítmico
era mais apurado”.Afirma Ademar
.
Alguns artistas Jamaicanos vieram no rastro
de Bob Marley, como: Jacob Miller, Bandas
The Gladiators, Culture e todos fazem sucesso
em São Luis através das raízes
plantadas por Bob. Essas influências
marleianas incentivam as inúmeras bandas
de reggae da ilha, com ritmo e sotaque jamaicano.
Foram várias as bandas de reggae, que
descobriu em suas batidas a pulsação
da música do astro do reggae, como:
Tribo de Jah, banda Guetos, Filhos de Jah,
Kazamata, Mano Bantu, Capital Roots e tantas
outras que beberam na fonte do rei. No alto
da sua trajetória de vida, Marley ainda
vive na memória de quase todos aqueles
adeptos a boa música do terceiro mundo,
do Funk ao Rock, do Rap de hoje ao mambo da
mãe África, ou do Roots, do
Reggae, do Soul... Cada canção
é um sinal. Mas é preciso tomar
os devidos cuidados com o tipo de canção
e vibração que se dá
ao povo. Para a sua Majestade Marley: “é
preciso ter cuidado com o que se canta, se
assim quiserem explorar, isso só apressará
a sua queda”.
O reggae – “música dos
reis” como entendia Marley, é
um esforço humano de reconstrução
da dignidade, do destino e da cultura de um
povo. Herói da raça negra, Orfeu
guerreiro, pastor da rebelião dos pobres
e oprimidos (como foi em boa parte, sua longa
estrada da vida), Marley denunciou a violência
da babilônia – o mundo branco,
ocidental. A herança divina e infinita
de sua coragem e perseverança são
as luzes que ilumina esta longa e incalculável
história de vida de um rei, que depois
de 27 anos continua vivo na memória
da nação do reggae.
* Jornalista e Radialista, membro do movimento
reggae de São Luis, Locutor e Apresentador
do programa Radiola Reggae, na Difusora FM.
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