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A
nova Babilônia
Tarcisio Selektah
“Um povo sem o conhecimento de seu passado
histórico, origem e cultura é
como uma árvore sem raízes”
Marcus Garvey
O
presente arrazoado tem como ponto fulcral
minhas observações sobre o novo
panorama que descortinado o surgimento dos
chamados “grupos de colecionadores”
de Reggae.
Como
sempre tenho dito em outros escritos que ninguém
precisa concordar ou gostar do que escrevo
e como escrevo. São opiniões
e criticas feita a partir de uma vivência
e convivência cotidianas dentro do Movimento
Reggae da Ilha.
E
repito mais uma vez, séria interessante
que outros regueiros também escrevessem
suas opiniões e fizessem suas críticas.
Todo o debate é enriquecedor e ajudar
o Movimento Reggae a crescer. O movimento
Reggae agradece.
Bom,
comecemos. Em meados deste novo milênio
havia uma disputa entre dois grupos de colecionadores,
um do bairro de Fátima – Black
Roots e do Bairro da Liberdade – Freedom
Group, aconteceram festas e disputas entre
os mesmos.
Aos
poucos foram aparecendo outros grupos que
tinham como objetivo o fortalecimento do Reggae
de raiz em São Luis e combater a mídia
das grandes radiolas, que apregoavam a “morte”
dos clássicos e passaram a tratar pejorativamente
de “música do passado”.
Lembro-me
muito bem que Marcos Vinicius me procurou
em uma festa e apresentou-me um grupo de regueiros
que queriam fazer um Festival de Baianinhas
tocando somente os clássicos do Reggae
jamaicano. E que a idéia era criar
uma força alternativa as grandes radiolas.
Posicionei-me favoravelmente, elogiei a idéia
e disse que eles deveriam ser realmente uma
força independente para não
ter que depender da mídia das radiolas
para fazer os eventos acontecerem. E disse:
“aí sim vocês serão
uma alternativa, pois se esse movimente ficar
atrelado ao radioleiro não será
uma alternativa”.
Daí
em diante foi surgindo grupos e mais grupos
em todos os bairros. De inicio tudo era harmonioso
e caminhava em uma boa direção.
Compareci,
fotografei e divulguei festa de muitos grupos.
Fui convidado a participar de alguns grupos
e nunca aceitei.
De
repente começaram a brigas internas
nos grupos, umas por ciúmes e outras
pelo controle do grupo. Cheguei a presenciar
pessoalmente algumas. Houve separações
e criação de outros grupos e
desaparecimento de outros.
Alguns
membros, que são realmente colecionadores
de vinil, que estavam nestes grupos começaram
a chatear-se com os outros componentes que
só queria “sugar” o arquivo
construído ao longo dos anos com muito
sacrifício econômico. Muitos
largaram os grupos e continuaram tocando suas
respectivas coleções no anonimato.
Na
realidade, hoje, está claro algo que
eu disse há uns cinco anos. A maioria
dos membros dos grupos de colecionadores são
arquivadores de música Reggae em disquetes
de MD. Muitos só “baixam”
“raridades” músicas da
internet e enchem HD’s e DVD’s
de arquivos baixados. Boa parte nunca manipulou
de verdade um vinil.
Mas
nem tudo está perdido, nesse emaranhado
há os autênticos colecionadores,
uns continuaram fazendo o que fazem há
anos e outros que resolveram colecionar vinil
a partir de sua inserção nos
grupos. O mercado de vinil de Reggae cresceu
e encareceu.
Outra
coisa interessante foi a criação
de um mercado de compra e venda de toca-discos.
E para quem não sabe os toca-discos,
vinis e deck de rolo nunca deixaram de ser
fabricados, muito pelo contrário as
tecnologias de fabricação destes
aparelhos foram aprimoradas. Vide o lançamento
do toca-discos a laser no Japão e o
novo método de prensagem dos disco
de vinil que tem qualidade sonoro superior
aos seus antecessores. Aguardem um artigo
em breve.
Criou-se
uma associação dos grupos que
tentou organizar e dar uma direção
ao movimento de colecionadores. Havia reuniões
semanais para discussões de temas de
interesse dos grupos e um calendário
de eventos para que não houvesse coincidência
de datas e que todos pudessem participar da
festa de todos.
Todos
esses percalços, encontros, desencontros
e contratempos dentro deste movimento não
tiram o mérito de terem feito sua parte
nessa nova Onda Roots em São Luis,
e que volta a se espalhar pelo Maranhão
como um todo. Vide os grupos de colecionadores
de Codó, Guimarães, Cururupu,
Pinheiros, etc., etc..
Assim
como as radiolas e os radioleiros são
peças chaves na armação
dos pilares do Reggae no Maranhão no
final dos anos 70 e nos 80 e 90. Os grupos
de colecionadores também fizerem sua
parte e tem sua fatia nessa nova fase do Reggae.
Não podemos deixar de lembrar os DJ’s
e donos de bares que seguiram fiéis
ao Reggae de raiz.
Mas
um movimento que tinha como princípio
ser uma nova força independente ainda
peca por estar atrelado aos radioleiros, que
eram chamados de “Babilônia”.
E agora os seus críticos são
a Nova Babilônia.
Havia
um sentimento e a intenção de
se fazer trabalho de alcance social que não
é era feito radioleiros. Agora o que
vemos é o surgimento da Nova Babilônia,
os grupos de colecionadores e/ou seu membros
em uma busca desenfreada para realizar festa
e lucrar com a venda de cerveja. Às
vezes no mesmo dia há festa de 3 ou
4 grupos de colecionadores ao mesmo tempo.
Todo
grupo quer fazer festas, um bar e faturar.
E o social pessoal???
A
busca desenfreada pelo lucro e pelo dinheiro,
o desrespeito ao regueiro em festas e o maltrato
com aqueles que fazem a Babilônia crescer
e se expandir está chegando aonde não
devia.
O
Reggae é uma arma para lutar contra
a babilônia e toda sua sujeira, contra
ideais falsos e as hipocrisias e para conquistar
novas forças para a luta contra a opressão
e as injustiças sociais. Sendo mais
enfático e citando algo que já
escrevi antes “O Reggae é dos
mais notáveis esforços humanos
da reconstrução da dignidade,
do destino e da cultura de um povo, o povo
negro e de todos aqueles que também
se encontram nesta situação
de injustiça e opressão”.
È
a luta de todos contra todos. Lutem primeiramente
contra a Babilônia dentro de vocês.
Sejam regueiros guerreiros lutando CONTRA
a Babilônia e jamais sejam guerreiros
DA Babilônia. È preciso compreender
o poder de sedução e o engano
desse sistema, sem se corromper pelo espírito
do mundo babilônico e sem serem enganados
pelo seu falso glamour.
Não
custa nada lembrar a Tribo de Jah com a música
Babilônia Brasileira
Como
pode um país continente?
De extensas terras, incontáveis riquezas
Dominado por uma elite tão inconseqüente,
Saqueando o povo, semeando a incerteza.
Empresários, políticos, corruptos,
oportunistas
Constroem seus impérios manipulando
a massa,
Prepotentes senhores escravagistas,
Tão hábeis em suas trapaças
A lei do mais forte é sua segurança,
Tornando pessoas mais e mais oprimidas,
Famílias inteiras sofridas, sem esperanças,
Carentes e subnutridas crianças.
Brasil babilônia,
Terra da pouca vergonha,
De que vale tamanha riqueza,
Terras boas. Tão bela natureza,
Se o povo não pode almejar,
Ao menor bem estar, de Ter o pão sobre
a mesa.
Babilônia brasileira,
Paraíso dos safados,
Regime do Demônio,
Sugando a nação inteira,
Capitalismo selvagem, sistema babilônio,
Jamais irá suplantar,
O sistema e os desígnios de Jah.
Ainda há um complicador nesses eventos
que é a seqüência. Já
escrevi em um artigo publicado na página
do www.reggaetotal.com que o público
regueiro vai para uma festa curtir, ouvir
sucesso, beber e dançar, essa é
a mecânico dos eventos. QUEM GOSTA DE
RARIDADE É COLECIONADOR, O POVO GOSTA
DE SUCESSO!!!!
Muitos
acusam Jr. Black, Jorge Black, Frank Wailer,
Dread Silver e Luis Mecânico de tocarem
as mesmas músicas, “seqüências
mesmice” ou “seqüência
manjada”, tudo bem que em alguns casos
a razão de ser das críticas.
Mas é justamente com essa mesmice,
seja ela qual for, que o público quer
extravasar suas emoções e suas
energias e vibrar com as músicas quem
fazem sua cabeça.
Os
colecionadores têm a “seqüência
vai-com-deus” de raridades, que são
capazes de lotar uma festa e fazer com que
ninguém dance. Vide a festa do Espaço
Aberto. Pois é, falta a “seqüência
mesmice” que o regueiro gosta de ouvir.
Mas
nem tudo está perdido, é preciso
que se repense a práxis atual dos grupos
de colecionadores. Fazer uma diatribe profunda
de suas ações e ter a humildade
de reconhecer erros e acertos.
Trilhar
os caminhos da Babilônia é fácil,
difícil é sair dela.
Se
os regueiros forem conscientizados e se unirem
fraco será o ferro frente a força
que os unirá. Não sejam escravos
de sua própria libertação.
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