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RADIOLAS
DE REGGAE
As
radiolas são equipamentos de som com
uma aparelhagem “suigeneris”,
exclusivamente utilizada para reproduzir o
reggae. Trata-se de um fenômeno musical
de São Luís do Maranhão,
a “Jamaica brasileira”, onde o
ritmo predominante é o reggae até
no carnaval.
O PORQUÊ
DESTE ARTIGO
O
mais puro reggae jamaicano (o Roots Reggae),
brotando de cada uma das cinco “paredes
de caixas acústicas” distribuídas
pelo recinto, a multidão compacta em
indolente balançar e os exóticos
gorros de crochê em tons de verde, amarelo
e vermelho (as cores da Jamaica) aqui é
São Luís do Maranhão.
Conhecida por sua rebeldia e pelo português
castiço cultivado por seus escritores,
São Luís possui um lado jamaicano,
profundamente arraigado nas camadas populares,
que surpreende no primeiro momento a quem
se depara com esta realidade.
Ao ouvir o termo radiola, não dei a
princípio maior importância ao
fato. Lembrei-me apenas das antigas eletrolas
que, imponentes e espaçosas, decoravam
a sala de jantar há algumas décadas.
De tanto ouvir coisas como “você
foi ao raggae ontem? De quem foi a radiola
que estava tocando?” fui obrigado a
assumir a condição de “turista”
e lascar um “what`s this?” caboclo,
para admiração do interlocutor,
pasmo com tamanha ignorância de minha
parte.
A resposta a essa pergunta não cabe
em meia dúzia de palavras, tal a multiplicidade
de aspectos envolvidos na questão.
Foram necessárias mais duas temporadas
na “capital do reggae” para que
eu pudesse satisfazer minha curiosidade a
respeito. De volta ao sul, constatei que poucos
sabiam algo a respeito. Por esse motivo, resolvir
resumir minhas impressões neste artigo.
A
RADIOLA
No primeiro contato com uma radiola, uma multidão
esprimia-se entre os paredões de caixas.
A galera curtia numa boa. O ritmo característico,
as letras em inglês “crioulo”
e alguns fãs mais empolgados, vestidos
à caráter, asseguravam o inconfundível
clima jamaicano que cunha esses eventos. Foi
com um indisfarçado ar alienígena
que examinei aquela “parede de caixas”
coloridas, exibindo os mais diversos tipos
de falantes e cornetas, além da profusão
de tweeters: eram duas grandes e três
pequenas.
Cada parede grande contém
32 falantes de 15”, 8 falantes de 12”,
32 tweeters ST203, 8 cornetas HC23-25, 2 cornetas
HC56-25 e 2 cornetas H20, totalizando 12 drivers
D250 só nessa parede maior. Cada parede
pequena tem 16 falantes de 15”, 4 falantes
de 12”, 8 cornetas HL14-25, 4 tweeters
ST302. Somando tudo, temos 112 falantes de
15”, 28 falantes de 12”, 48 drivers
e 88 tweeters!
Quanto
aos equipamentos, há de tudo um pouco,
dos domiciliares aos profissionais conhecidos,
passando por marcas e modelos “extintos”
há um bom tempo, além dos efeitos
artesanalmente. São amplificadores,
delays, pré-amplificadores, mixers,
receivers, tape-decks de rolo e cassetes,
receptores de TV e equalizadores gráficos.
Os equipamentos são montados em estantes,
normalmente divididas em 3 módulos,
e nunca nos racks utilizados nos sistemas
de P.A., o que lembra uma superinstalação
caseira. Dois fatos são significativos:
a inexistência de mesas de mixagem (os
mixadores simples são os preferidos)
e a utilização dos equalizadores
gráficos na função de
crossover.
Talvez com exceção da Radiola
Studio Máster, do mestre capoeira “Neguinho
Jamaica”, nenhuma outra utiliza crossover
eletrônico, sendo as 4 vias ativas (padrão
entre as radiolas de médio a grande
porte) obtidas através de 4 equalizadores
gráficos.
Uma observação: nem todos os
equipamentos instalados na estante estão
necessariamente interligados ao sistema. Assim,
o crossover eletrônico pode estar lá
desempenhando um papel meramente visual. Há,
seguramente, uma preocupação
com a quantidade, um dos aspectos valorizados
pelo público.
COMO
SOA A RADIOLA?
As radiolas são
fruto do saber popular, desenvolvidas por
pessoas que, com poucas exceções,
não tem formação técnica
e, empiricamente, ao longo dos anos, vêm
buscando a fórmula da radiola perfeita.
Por essa razão, vemos procedimentos
nada ortodoxos, como a utilização
de equalizadores para dividir as 4 faixas
de freqüência, no lugar dos crossovers
tradicionais e a equalização,
diferentemente aplicada nos canais esquerdo
e direito, modificando o estéreo da
gravação original, ainda que
sem transformá-la em mono. Aliás,
no jargão das Radiolas, som estéreo
significa um som com agudos acentuados, por
sinal muito ao gosto do “regueiro”.
Essas peculiaridades fazem com que os “P.A.zeiros”
sintam-se pouco à vontade e pisando
em solo estranho, no terreno das radiolas.
“Há uns 5 anos, apareceu por
São Luís um cara de São
Paulo que montou uma radiola, com tudo dentro
dos “conformes”, segundo o esquema
típico dos P.A.s. O som era muito bom,
mas o público não aprovou e
o jeito foi desarmar o “acompanhamento”,
conta o Júnior “Black”.
Para satisfazer minha curiosidade, coloquei
a faixa Sultans of Swing, do Dire Straits,
no CD player de uma radiola, e não
deu outra: sobraram agudos e o grave não
convenceu. Troquei para Why Do You Do It,
do CD Babilônia em Chamas, da Tribo
de Jah, e a coisa foi completamente diferente:
o reggae soou agradável e natural,
para minha surpresa. Acredito que a radiola
seja um “sistema delicado” desenvolvido
exclusivamente para reproduzir reggae. Pensando
a respeito, imaginei um sistema otimizado
para executar gravações de cravo.
Certamente espantaria por suas peculiaridades,
e seria provavelmente imprestável para
heavy metal. Não raro vemos a ciência
explicando e ratificando o saber popular.
A concepção da caixa graves,
por exemplo, é perfeita. Acomodando
4 falantes em uma caixa, tira-se partido do
acoplamento entre os cones, o que quadruplica
o rendimento; por serem quatro os falantes,
pode-se aplicar 4 vezes mais potência
elétrica que leva a uma potência
acústica 16 vezes maior do que a conseguida
com um único falante.
Trocando idéias com o “Neguinho
Jamaica” e o “Júnior Black”,
sugere que o volante total fosse acusticamente
suficiente para os 4 falantes, que o duto
fosse sintonizado corretamente e que cada
falante ficasse em uma câmera individual,
com seu duto respectivo. Enfatizei a importância
de uma perfeita vedação nas
funções das placas, no assentamento
dos falantes e dos furos para passagens dos
fios, entre as câmeras e para fora da
caixa. Conversa vai, conversa vem, quando
vimos estávamos descendo do caminhão
do Junior com 03 placas de compensado de 15mm
para que o Anselmo Coelho dono da Radiola
Musical Ilha do Som e carpinteiro nas horas
vagas, construísse nosso projeto: 1,10
x 1,10 x 0,60m, com 4 divisões internas
para os falantes 15PW2. como dutos, um em
cada câmera, 4 rasgos retangulares no
painel frontal com 12 x 10cm. Nas funções,
internamente, foi aplicada uma massa de pó
de lixadeira, aglutinada com cola branca,
para garantir um perfeito vedamento.
Esquecemos
de calafetar uma das funções,
no painel frontal, e deu um “bruta”
vazamento, que acabou sendo vedado pelo lado
de fora, através de uma moldura de
acabamento. Esse protótipo esta em
São Luis para avaliação
dos radioleiros.
A turma das radiolas não se aperta
por pouca coisa. Queimou a bobina do falante
e a original esta em falta? A caixa caiu e
empenou a carcaça do falante? Está
precisando de um falante de 15” e no
comércio só tem de 12”?
neste caso aplica-se o conjunto magnético
do falante de 12” em uma carcaça
de 15”. Nestas horas vale a criatividade
e um pouco de improvisação,
tudo para manter as radiolas funcionando.
É claro que existem senões nesses
arranjos, mas, na hora do sufoco, dá
para se safar.
O PUBLICO E
AS PEDRADADAS
Cada radiola tem seu público, que a
acompanha onde quer que vá, lembrando
uma torcida organizada, felizmente pacífica.
Antes freqüentadas apenas pelas pessoas
mais modestas, hoje todas as classes sociais
aderiram ao som das radiolas e mais de uma
vez escutei conversas a respeito da presença
freqüente de “barões”
do reggae. Na portaria, um severo esquema
de revista impede a entrada de pessoas armadas
ou portando objetos que possam construir ameaça.
O clima é tranqüilo, de pura diversão,
e as pessoas presentes querem mesmo é
curtir o reggae. Caso haja algum incidente,
os seguranças contratados parecem aptos
a dar conta do recado. Para garantir paz ao
local ocorrem ainda revistas periódicas
de numerosa tropa da PM, com metralhadoras
exibidas ostensivamente (que dá um
certo toque de exagero).
Os três aspectos, em ordem decrescente
de importância, mais valorizados pelo
público, são: as “pedradas”
exclusivas, o DJ e o equipamento / visual.
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O primeiro requisito
obriga que os donos das principais radiolas
façam constantes viagens à Jamaica,
aos Estados Unidos e até à Europa
para incorporar músicas exclusivas
ao repertório, que constituem as “pedras”
ou “pedradas”. O Junior Black,
da radiola “Sonzão do Junior
Black”, há oito anos no circuito
do reggae, com experiência de suas 5
viagens à Jamaica, dá dica:
São Luis - Belém - Miami –
Kingston, por 650 reais ida e volta, com mais
US$ 30 por dia em hotel. A cada viagem ele
compra cerca de 500 discos de vinil (compactos
de 45rpm) a R$ 1,00 por disco. Geralmente
discos antigos, de 15 a 20 anos atrás,
com o reggae tradicional, o roots, que perdeu
a preferência do publico jamaicano para
o Shaba Ranks e o Dance Hall, mas é
ainda o preferido em São Luis. Já
o “Carne Seca” (ver quadro nesta
pagina 34), vai garimpar sua “pedras
preciosas” na Inglaterra, onde esteve
por duas vezes. Em sua ultima viagem trouxe
na bagagem 311 compactos, 110LPs. Segundo
ele, sem complicação aduaneira
pelo fato dos discos não serem repetidos.
A pressão do público pelas “pedradas”
exclusivas cria algumas situações
insólitas: um compacto comprado por
R$1,00 já encontrou dono de radiola
disposto a pagar por ele R$ 1.000,00. se uma
musica deixa de ser exclusiva, perde de imediato
o interesse do público e pára
de tocar nas radiolas e até em algumas
programas de rádio. Por esse motivo,
os reggaes de Jimmi Cliff e Bob Marley quase
não rodam nas radiolas, o que é
uma pena. Para garantir a exclusividade, os
DJ`s “sujam” com suas vinhetas,
durante a reprodução, as musicas
que querem preservar. O próprio “
Carne Seca” conta que custou a descobrir
as manhas de um vivaldino que ardilosamente,
em constantes “visitas de cortesia”,
copiava na surdina suas melhores “pedras”
para um concorrente. Existem histórias
a respeito da compra de todos os exemplares
de um mesmo disco, para transformá-lo
em raridade, o que não é fácil,
em se tratando de discos prensados há
mais de 10 ou 15 anos, por pequenas gravadoras.
Se você gosta do gênero, saiba
que empresas como a Trojan e a Jet Star, atuando
na Inglaterra, França, Canadá
e Jamaica, estão regravando em CDs
antigos discos de vinil com os “roots
reggae”.
OS
DJ`s
O DJ é uma figura importante na Radiola
e faz parte de uma cobiça confraria
de difícil ingresso. Muitas vezes acumula
essa função com a de técnico
de som e, não é raro, ajuda
a carregar as caixas, transportando as caixas
de um clube de reggae para outro, debaixo
do sol forte, passando a fiação
interligando os equipamentos na estante. Vestido
a caráter, o DJ trabalha com o porta
cassetes, onde estão as “pedras”mais
pedidas e cobiçadas pelo público.
Daí para frente é tudo festa,
pelo menos até o dia seguinte, quando
tudo se repete, e o equipamento tem que ser
levado para o outro lugar. Há uma tendência
atual, combatidas por alguns, do DJ ser mais
“estrela” que os cantores que
apresenta. Quando é esse o caso, quase
não deixa brecha: canta por cima, solta
vinhetas e marreta ditos e chavões
o tempo todo.
"ESTIMA-SE
EM MAIS DE MIL O NÚMERO DE RADIOLAS
ESPALHADAS NO MARANHÃO"
Uma pedras no sapato de alguns DJs é
o idioma. As músicas estão todas
em inglês e anunciá-las pode
construir um serio problema para alguns. Mas
nada que a criatividade não resolva:
ao invés do titulo original, em inglês,
utiliza-se um apelido. Atualmente fazem muito
sucesso a Melo da Fátima, a Melo da
União, a Melô da Estrela do Som,
a Melo da Studio Máster e assim por
diante.
PRESENTE
E FUTURO DA RADIOLA
Hoje, as radiolas são
empresas informais, apesar de serem algumas,
supostamente, bastantes lucrativas. Até
do DECAD estão por enquanto livres,
segundo dizem os radioleiros, por não
tocarem música brasileira. Estima-se
em mais de mil o número delas, de todos
os tamanhos, espalhadas pelo Maranhão.
Certamente esta situação de
paraíso fiscal não vai durar
para sempre, o que obrigará a uma maior
racionalização na operação
e nos investimentos.
O modelo atual, aparentemente aceito como
consenso (todas as radiolas são muito
parecidas entre si na essência), pode
mudar de uma hora para outra, assim que sentirem
a necessidade ou quando algum radioleiro de
peso “piscar” primeiro. Quando
isso acontecer, as demais irão atrás,
pois, na realidade, estão todos muito
atentos aos passos dos concorrentes e, se
um fez, o outro não vai resistir à
tentação de experimentar também.
Provavelmente as grandes paredes de caixas
venham a diminuir de tamanho, substituídas
por outras menores, com falantes mais eficientes,
e com um melhor aproveitamento da potência
instalada nos transdutores. Atualmente, as
caixas de graves aparentam possuir um baixo
rendimento (uma das causas prováveis
deve ser o uso de reparos não originais)
e, como estão configuradas para 8 ohms,
ligadas a amplificadores com potência
insuficiente para excitá-las plenamente,
isso significa que o aproveitamento dos falantes
ainda não chegou ao máximo admissível.
É claro que a situação
atual proporciona uma grande folga, o que
é bom para a confiabilidade do sistema,
principalmente no atual estágio de
domínio da técnica. Com mais
conhecimento disponível, os limites
de operação poderão ser
empurrados mais para cima, sem comprometer
a confiabilidade do sistema. Com menos equipamentos
e melhor utilização dos mesmos,
a lucratividade aumentará. Isso acontecendo,
a Radiola vai despir-se de parte do seu folclore
tecnológico, ficando cada vez mais
parecida com os sistemas de P.A., dos quais
parece tão distante.
Se você ainda não viu uma Radiola,
então vá à São
Luís, antes que ela mude.
Gostaria de agradecer a todos que com paciência,
cordialidade e bom humor, colaboraram para
que essa matéria fosse escrita.
DE
PICK UP’S A RADIOLAS
José Ribamar
Maurício da Costa, conhecido como “Carne
Seca”, é considerado o introdutor
do reggae em São Luís. Em 1976,
viu como tudo aconteceu, ou melhor, participou
de tudo. Começou em 1951 animando festas
de aniversário com as chamadas “Pick
Up’s”, as antecessoras das atuais
“radiolas”. Exercia a profissão
de sapateiro, mais sua vida mudou ao ligar
o amplificador de um radio a válvula
com um toca-discos de 78 rotações
e agulhas descartável (só tocava
três discos). Daí em diante só
quis saber de eletrônica. Nessa combinação,
rádio/toca-discos, é que consistiam
as denominadas “Pick Up’s”.
Quando entrou no ramo, já atuavam nesse
seguimento os pioneiros Joca, Macieira e o
Jofre, os DJ’s da época, rodando
os bolachões do Ray Conniff e do Benvenido
Granda, os mais padidos. Empolgado, “Carna
Seca” foi ao Rio de Janeiro e fez o
curso de rádio da tradicional Escola
Electra. Segundo ele, o nome Radiola foi introduzido
entre os anos 58 e 60, em alusão às
eletrolas, novidade da época do “hi-fi”.
Já o reggae, chegou a São Luís
em 1976, vindo da Guiana Francesa, com o disco
Galaxy, do grupo Toyota, caracterizado como
música negra, residindo aí,
talvez a razão da facilidade com que
foi absorvido. O Titular da empresa “Sonzão
do Carne Seca”, que hoje compreende
as Radiolas Trovão Azul e Fera Musical,
observando as caixas acústicas sendo
empilhadas no caminhão, sentenciou:
“Menino, esse é o espinho da
profissão. Depois de montado, o resto
é pura festa!”
| Texto:
Homero Sette Silva, Eng. da SELENIUM |
| BACKSTAGE
N° 05 - 1994 |
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