São Luis - Maranhão - Brasil:
 
     
 
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REGGAE IN BRAZIL

by DAVID KATZ
Publicado na Riddim Magazine Germany - Jan 2010
Tradução Marc Dubiterian
Correções Tarcisio Selektah

No ultimo inverno chegou "a grande hora". Finalmente pude viajar ao país que sempre me fascinou. Devo admitir que até então nunca me interessei pela musica brasileira. Porem como fã assíduo do reggae, eu sabia que o reggae por lá já tinha seus ouvintes a muito tempo.

Em 1980 Jimmy Cliff fez uma turnê pelo maior pais da America latina, Bob Marley e Jacob Miller lançaram discos produzidos especialmente para o mercado brasileiro, o produtor Joe Gibbs abriu uma filial do seu selo em 1998, e concorrentes como GG Ranglin gravaram vocais em riddims antigos especiais para o estado nordestino do Maranhão. De fato há uma cena reggae bem ativa no maranhão, onde existe uma preferência pelo two step beat, como por exemplo Eric Donaldson, onde os casais dançam juntinhos tipo valsa nos eventos de soundsystem. No filme Dub Echoes, Bruno Natal mostra a grande influência do dub sobre artistas brasileiros como Nação Zumbi. Enfim, ainda tenho muito a descobrir.

Minha viajem começa como a de muitos outros no Rio de Janeiro, onde meu anfitrião em termos de "offbeat" é Nelson Meirelles, um catalisador para a cena reggae local desde os 80 e hoje componente do soundsystem Digitaldubs. Durante o dia ele trabalha na prefeitura, e a noite faz musica com o "riddim-maker" MPC e outro amigo chamado Talkmaster.

Em meados de 80, Nelson descobriu a banda cidade negra, da baixada fluminense, um bairro pobre da periferia do Rio. Ele conseguiu para a banda um contrato com a EPIC e em 1991 produziu seu primeiro disco "lute para viver" com o hit "falar a verdade". Quando Nelson tocou o disco para eu ouvir, soou um pouco estranho pros meus ouvidos, assim como no reggae africano, esse álbum é levado por uma batida um pouco diferente. A guitarra rítmica e afiada como no reggae jamaicano, e as linhas de baixo são solidas, porém o ritmo e as melodias são influências do samba, pop e rock. apesar de eu não entender as letras em português, o groove é tão forte que eu consigo entender porque a "cidade negra" é tão cobiçada.

Em seguida Nelson fundou a banda O Rappa, que mistura o reggae com outros estilos. Em 2001 criou com o Digitaldubs o primeiro soundsystem de dub e dancehall do Rio e o selo Muzamba para suas produções. Infelizmente, durante minha estadia no rio, não houveram eventos no casarão colonial no bairro de Santa Teresa, onde uma variedade de cantores das favelas se revezam no microfone.

Quando Nelson me levou ao estúdio do Digitaldubs no Catete, perto do centro da cidade, pude ouvir as produções mais atuais do MPC como o funk milk que lembra o baile funk, e o youth samba riddim. No estúdio, artistas entram e saem constantemente. O que mais me surpreende é que as produções do Digitaldubs soam mais como o estilo "uk steppers" do Disciples e Bush Chemists do que os riddims atuais de Kingston, devido ao fato de que MPC viaja regularmente a Londres, onde aparentemente e mais fácil de se chegar do que a Jamaica.

Uma vez acompanhei o Nelson ao Clandestino, num porão quente e pequeno de um lindo edifício antigo em Copacabana, onde funciona atualmente um albergue da juventude. O público é jovem, bêbado e 95% branco. O Rio parece em vários aspectos a uma cidade européia, cuja população negra e fortemente discriminada. o DJ principal da noite era um alemão cujo nome eu infelizmente não me lembro. o que ele mais tocava era bashment, com "wanna be" deejays locais mandando péssimas imitações de Buju Banton e Capleton. as 3 da manhã eu pude tocar um pouco de foundation dancehall, mas a escada do clube já estava toda vomitada e os poucos restantes estavam totalmente bêbados.

No dia seguinte parti do Rio em direção a Salvador, capital da Bahia, onde o reggae tem um papel importante, pois é lá que vive a maioria de brasileiros de descendência africana. Já estou familiarizado com o samba-reggae híbrido do grupo local de percussionistas Olodum, que além do carnaval, também se dedica a projetos sociais. Uma visita ao seu "quartel general" no antigo mercado de escravos no centro histórico Pelourinho mostra sua afinidade a cultura reggae, que se reflete em "imagens rastafári" nas paredes. "Aqui nasceu o samba-reggae" diz o presidente do Olodum João Jorge. "Antes só tocávamos samba, mas quando surgiram Jimmy Cliff, Peter Tosh e Bob Marley, queríamos unir o reggae ao samba tradicional dos africanos brasileiros".

Através do compositor Gilberto Monte conheci o Ministereo Público, o soundsystem reggae mais conhecido de Salvador. Apesar de sua apresentação no bairro praiano chamado "Barra" na noite de ano novo haver sido cancelado pela polícia, os integrantes me apresentaram roots reggae impressionante do cantores rastas nativos Edson Gomes e Lazzo Matumbi. Eles gostariam de tocar Super Cat, Tenor Saw e hits do Studio One a noite toda, porém muitas vezes são obrigados a tocar musicas clássicas brasileiras, porque com um set de puro reggae o publico ia "virar as costas" imediatamente. A impressão é de que o reggae em salvador ainda não se estabilizou completamente, para que um soundsystem de reggae pudesse se "garantir" uma noite inteira, se confirmou no dia seguinte num parque do bairro "pesado" Boa Viagem quando vários sounds só tocavam samba, baile funk, e um pouco de reggaeton. O único reggae que chegou aos meus ouvidos foi uma canção solitária do Alpha Blondie.

Mais ao norte, na adorável cidade Olinda, descobri pouco antes da minha partida um flyer anunciando uma festa semanal de dub em Recife, cidade vizinha com alto índice de criminalidade - o convidado desta semana era dubiterian, tocador de melódica e produtor de Munique, Alemanha, com fortes conexões com o Brasil. Liguei para o produtor e promoter local Buguinha Dub para marcar uma entrevista, mas ele não fala inglês e meu português e péssimo. No seu "Myspace" descobri sons altamente cativantes e originais, mixados ao estilo "Scientist" com um twist brasileiro, os quais eu não vou perder de vista.

Ao partir eu estava ciente de que só vi uma pequena parte do reggae no Brasil. Quem já foi ao Brasil sabe que o país e muito grande para visitar todas as atrações em uma só viajem. Da próxima vez devo ir de qualquer jeito ao Maranhão, a Jamaica brasileira, para analisar de perto a cena reggae "florescente". Espero que o Maranhão não espere tanto por mim quanto a minha primeira viagem ao Brasil...

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