São Luis - Maranhão - Brasil:
 
     
 
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NO MOMENTO ESTAMOS COM O SERVIÇO FORA DO AR

 

 

 

 

 

 
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QUEM É REI NUNCA PERDE A MAJESTADE


Ronald Corrêa*

Existe um velho dito popular que diz: quem foi rei nunca perde a majestade. Em tempos de crescente descrença é sempre bom ver um dito como este ser confirmado. Para chegar até esta constatação é preciso, de início, fazer uma pequena viagem há alguns anos passados. Vamos lá?
Iniciemos voltando aos idos da década de 70, quando um ritmo soava estranho e fascinante aos ouvidos de uma pequena parcela de ludovicenses. Na falta de conhecimento sobre aquele ritmo, resolveram chamá-lo de música internacional. O som reverberava em alguns poucos bairros periféricos e inevitavelmente suas ondas ganhavam cada vez mais amplitude.
De grão em grão, o ritmo se espalhou e já na década de 80 era impossível não ouvi-lo nos guetos da ilha. A música internacional foi finalmente conhecida por sua identidade e todos passaram chamá-la pelo seu nome de batismo: Reggae. Clubes surgiam, colecionadores corriam atrás de materiais, programas de rádio especializados apareciam e, paulatinamente, um mundo a parte era erigido em torno daquele ritmo que literalmente regava corações e ouvidos de uma agora parcela considerável da população.
A década de 90 chega e com ela uma nova etapa da história do reggae é escrita. As viagens de donos de radiolas e colecionadores em busca das pedras transformam os discos em verdadeiras preciosidades. As músicas exclusivas dão a tônica às acirradas disputas entre os sound systems. Coletâneas em cd, de origem duvidosa, surgem e levam o reggae para os carros de playboys, para festas de 15 anos, para locais nunca dantes penetrados por um ritmo que desde sua origem foi tipicamente marginalizado (entenda-se: corria à margem de tudo o que era imposto pela indústria fonográfica). O reggae agora invadia todas as classes, todas as castas, todas as estratificações possíveis. E desta forma, São Luís ganhava a alcunha de Jamaica Brasileira.
Bom, a década que começou magistral foi tendo um desfecho não tão à altura do que se esperava. A partir de meados dos 90 começaram a surgir os apocalípticos que decretavam o fim do reggae de raiz, aquele que fincou bases sólidas na ilha de Upaon-Açu. Diziam os extremistas que a fonte roots que tanto abasteceu São Luis havia secado.
Surgia então a era do reggae por encomenda. Cantores da Jamaica e da Inglaterra gravavam diretamente para os radioleiros. Em seguida, os próprios nativos passaram a gravar suas músicas e vende-las às radiolas. O brilho, a chama irresistível do ritmo vindo da ilhota encravada no meio do mar do Caribe, parecia perder força.
Mas como diz outro velho dito, o bom filho à casa torna. Assim, virou o milênio e também a lógica no reggae. As pedras voltam para o lugar de onde vieram, para o berço que lhe deu todo o esplendor conseguido: os bares! Começaram a surgir timidamente espaços de resistência em que somente o bom e verdadeiro reggae roots era executado. E nesse processo a figura dos Grupos de Colecionadores foi fundamental. As festas organizadas pelos Grupos, ora com finalidade filantrópica, ora com o intento de se congratular com outros grupos, foi dando força aos locais onde eram realizadas e, consequentemente, fortalecendo e reavivando o reggae roots.
Um bar aqui, outro ali, em geral nos bairros periféricos, e o ciclo do reggae se renova voltando às suas origens. O Bairro de Fátima com o Magno Roots e o Celso Cliff; o João Paulo com o saudoso Cultura (que faz falta hoje!); a liberdade com o Cidinho Bar; a anil com o Recanto Bar e é claro como Kingston 777; a Litorânea como Bar do Nelson; e mais recentemente uma variedade de outros points como o Caldeirão do Chopp, Dub Bar, Túnel do Tempo e outros que, não sendo exclusivamente de reggae, abrem suas portas para o bom roots como o Trapiche, o Daquele Jeito e o Cerveja no Balde. Isto sem citar, e já citando, o Bar do Porto e o Roots Bar no Centro Histórico e o Chama Maré na Ponta da Areia.
E é interessante perceber que se o reggae volta às suas origens, em festas nos bares, é igualmente interessante perceber que outra peculiaridade, também ligada às origens, volta com força total em findos da primeira década de 2000: a cultura do vinil.
Causa-me grande felicidade constatar que a cada dia surgem pessoas adquirindo as bolachas, formando duplas como o intento de propalar a idéia de festas em que a estrela principal é o reggae tocado direto do vinil.
Bom, mas é hora de voltarmos ao início do texto. Ali eu dizia que “quem é rei nunca perde a majestade”. E digo, sem pestanejar, uma vez Jamaica brasileira, sempre Jamaica brasileira. Indo de encontro a todos os prognósticos, o reggae roots, o reggae de raiz, o reggae que cavou fundo suas raízes aqui em São Luís está vivo, mais do que nunca. Crescendo a cada dia, abrindo novas portas, reconquistando espaços e mostrando que, ao contrário do que muitos diziam, a fonte rejuvenesce constantemente.
Iniciamos, agorinha há pouco, uma nova década. Decerto que um capítulo a mais da história está por ser escrita. Particularmente não sou muito dado às previsões ou prognósticos, mas soa indubitável que o reggae volta a refazer sua saga nesses 40 anos e que culminou com a profusão alcançada na década de 90. O reggae voltou a seu berço, os bares, voltou a reunir colecionadores, voltou a ser ouvido direto dos vinis. Isto tudo me leva a crer que, se previsões hão de serem feitas, elas deverão sempre considerar que o roots reggae tende a cada vez mais manter sua chama sempre acessa e cada vez mais intensa. Afinal, quem é rei...

05.01.2010

* Um simples e humilde apreciador do bom Roots Reggae!

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