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Texto
escrito por Ronald Corrêa*
Em
idos de 1991, auge das viagens dos radioleiros
de São Luis para Jamaica, Londres e
outros recônditos por onde se escondiam
as pedras, ouvi no programa do saudoso Carlos
Nina o Serralheiro afirmando que tinha discos
e músicas para rolar até o ano
2000. Àquela época o ano de
2000 parecia que nunca chegaria, não
raras eram as especulações sobre
o fim dos tempos.
E não é que as profecias se
revelaram verdadeira! Pelo menos para aqueles
que pensavam ser eterno o estilo de reggae
que ouviam desde a década de 70 até
findos dos anos 90. Os tempos daquele estilo
de reggae que consagrou São Luis no
cenário nacional e mundial, mostrando
que um pedaço da Jamaica residia aqui,
foi sendo pouco a pouco sobreposto por uma
tendência musical deveras apelativa,
movida tão somente por interesses econômicos
e com um descaso patente com relação
à qualidade.
Não quero aqui evocar a eterna luta
que se trava aqui entre os adeptos do Roots
tradicional e os arautos do Reggae produzido
a partir do fim dos anos 90 tendo como destinatário
os donos de radiolas (chamado de eletrônico
ou robozinho). Pelo contrário, defendo
que cada pessoa tem o livre arbítrio
para ouvir o que quiser. Democracia é
isso: respeito à pluralidade, às
diferenças e o direito de poder escolher.
Para minha felicidade, o estilo de reggae
que escolhi gostar e ouvir, o reggae roots
que se filia à tradição
herdada de nomes já gravados na história
como Joe Higgs, Bob Marley, Ijahman Levy,
Max Romeo, Owen Gray, Jonh Holt, Gregory Isaacs,
mesmo diante de todo o poder da mídia,
via programas de rádio e televisão,
via radiolas, mesmo nadando contra toda essa
forte correnteza, o velho roots sobrevive.
Anima-me e muito ver que os grupos de colecionadores
vêm cada vez mais se organizando, realizando
eventos, que estão incansavelmente
atrás de materiais musicais novos.
Materiais esses que tem um único parâmetro:
a qualidade.
Alegra-me ver que os bares especializados
no bom roots estão dia a dia se proliferando
pela cidade, atraindo número cada vez
maior de adeptos e freqüentadores.
Deixa-me com um largo sorriso ouvir em rádios
em que os programas de reggae pertencem a
donos de radiola, músicas como “You
Never Get Away” do Boris Gardiner, “Signs
and Wonders” do Don Gordon, “Back
Staba” dos Israel Vibration, ou mesmo
a já consagrada “So Long”
do Keith Drummond & The Cables, conhecida
também como melô do Trapiche.
Isso me deixa ainda mais convencido de que
o bom roots nunca se esvairá, e que
existe espaço para ele em qualquer
ambiente que evoque o nome Reggae.
A primeira década deste nosso pueril
século XXI que começa tem nos
mostrado que, se por um lado o reggae em São
Luis sofreu uma drástica mudança
onde roots tradicional fora solapado pelo
reggae produzido aqui, nos mostra também
que a vitalidade das pedras dos bons tempos
está cada vez mais evidente, e que
os amantes, apreciadores e colecionadores
ainda vão ter muito o que ouvir, dançar
e difundir.
Vida longa para o nosso bom e velho Roots
Reggae!
(14.01.2008)
*
Pedagogo, Acadêmico de Direito e apreciador
do verdadeiro Roots.
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