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EM MEMÓRIA DE STANLEY

Mais uma vez sentimos o quão difícil é encarar a morte, encarar a perda de alguém querido. Talvez seja tarde para prestar quaisquer homenagens à Stanley Beckford, mas agora, não há outra alternativa senão tentar eternizar a memória e os feitos deste grande nome da
música. Não se trata de transformar a música de Stanley em peça de museu, pois o museu serve recordar aquilo que perdeu seu uso, e a música do "Starlight" continua viva, não só no coração de milhares de regueiros, mas dentro do incrível mundo do reggae roots,
das radiolas, etc.

Stanley Beckford nasceu em 1942, em Portland (à exemplo de Jackie Brown). Muito cedo, tornou-se orfão de pai e mãe, indo viver em Kingston. Como diversos outros artistas jamaicanos, ele começou cantando na igreja. Em pouco tempo, Stanley ganharia o concurso
Vere Johns Rario Talent Competition. No começo da carreira, Stanley se apresentava como Stanley and The Turbines, e essa denominação serve para focar a parte de sua carreira onde os ritmos tradicionais do Caribe negro (mento/calypso) tiveram maior influência na composição musical.

Uma das características mais marcantes do som de Stanley é a bagagem cultural que o mesmo insere nas suas músicas, tanto como "The Turbines" quanto como "The Starlights". Mesmo fazendo reggae (ou country reggae) é notável a voz diferenciada, resultado de uma fusão entre mento e reggae. A voz de Stanley pode ser considerada um marco da cultura jamaicana. A distorção nasal que marca a voz peculiar, descende da forma como os escravos jamaicanos cantavam nas plantações de banana, cana-açúcar no período colonial. Ou seja, pode-se dizer que o reggae de Stanley Beckford é roots, com todas as concepções do termo. Reggae de raiz. Roots de verdade!

estilo de reggae que traz essas nuances rurais é considerado "Country Reggae"(termo criado por Cabeça de Leão) no Brasil, e fora como Reggaemento ou mento-reggae, uma vertente raríssima do reggae, trazendo como seus principais nomes, além de Stanley, Naaman Lee, Count Lasher, Count Sticky, Lord Laro (Kenneth Laro), etc. Muitos dos clássicos de Stanley, como "Dip Them Jah Jah Dip Them", "Mr. Walker" e "Big Bamboo" são regravações com novos arranjos de antigas músicas folclóricas da Jamaica.

Em 2000, Stanley chegou fazer shows pelo Brasil, como Salvador (show que aqui acolá é retransmitido pela STV) e em São Luís do Maranhão. Bem como outros clássicos do roots, como Eric, Jackie e Gregory, Stanley é bastante apreciado, porém os créditos são pagos ao nome do seu grupo "The Starlights". Quem nunca pirou com Soldering, Mama Dee, Donkey Man (Melô de Jumento), Queen of Sheeba (Melô de Xiba), Dip Them Jah Jah, Born Again Rasta, Mr. Walker, Faithfull Wife, Ina mi Prime, ou com pelo menos uma dessas?

No dia 30 de março, Thelma, esposa de Stanley, o encontrou na cama, à beira da morte, sangrando pelo nariz. Nada podia ser feito. Segundo ela, tudo aconteceu em questão de segundos. Stanley tinha 65 anos, e ainda estava em atividade, deixou sete filhos.

O incrível, é que mesmo com todo sucesso de Stanley, não só na Jamaica e no Brasil, mas na Europa, onde o cantor fez recentemente turnês com o grupo "Blue Gaze Band", ele foi esquecido pela indústria da música e morreu na pobreza. Alguns nomes como
Fabulous Five, Derrick Morgan, Sam Carty, Toots Hibbert chegaram a realizar uma festa beneficiente para arrecadar fundos para o tratamento médico de Stanley. Desde dezembro, quando o câncer foi diagnosticado, ele travava uma luta árdua contra a doença, mesmo com os poucos recursos e falta de apoio da industria
da música comercial e babilônica.

hora de fazer com que a música de Stanley continue ecoando por muito tempo, junto
com a carga cultural que a compõe. É hora de assentar as bases, para fazer com
que os regueiros do futuro possam, também, sentir o que nós sentimos ao ouvir um
reggae de raiz, como o de Stanley Beckford.

Que o Roots não morra...
Que Stanley não morra...

Esta é uma humilde homenagem póstuma a um dos reis do verdadeiro reggae.

Canuto Lion, O Indomável.

 
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